Estudo aponta que microplásticos reagem com a água e podem danificar células - Resenha crítica - 12min Originals
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Estudo aponta que microplásticos reagem com a água e podem danificar células - resenha crítica

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Editora: 12min

Resenha crítica

Microplásticos são os fragmentos em que o plástico se quebra com o tempo, pedaços menores que 5 milímetros que se desprendem de garrafas, embalagens, copos, canudos e brinquedos. Segundo vários estudos, eles já se espalharam por praticamente todos os ecossistemas do planeta, e também já foram detectados dentro de pessoas. O que ninguém sabia dizer com clareza era o que, exatamente, essas partículas fazem no corpo de quem as ingere ou respira.

Parte da resposta sempre esbarrou numa suposição: a de que o plástico é quimicamente estável, ou seja, não reage com as substâncias ao redor. É justamente por isso que ele é usado para embalar comida e bebida. Um estudo publicado em outubro na revista científica Nature, assinado por pesquisadores da Universidade Columbia e da Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos, sugere que essa suposição não vale para os pedaços muito pequenos.

Por que o plástico era tratado como inofensivo

A estabilidade química do plástico é a razão de ele estar em todo lugar. Um material que não reage com o que toca é um material seguro para guardar água, suco ou refrigerante, e é assim que as peças grandes se comportam na maior parte do tempo.

Por causa disso, a pesquisa sobre os efeitos dos microplásticos se concentrou durante anos em outras duas frentes. Uma era a dos aditivos e poluentes que as partículas carregam ou liberam. A outra era a dos efeitos físicos, com o plástico agindo como um corpo estranho dentro do organismo. O plástico em si, nessa leitura, não entrava na conta: ele seria apenas o veículo.

O novo trabalho desafia a ideia de que o que é verdade para o plástico em escala grande também seja verdade para os pedaços microscópicos em que ele se desfaz.

O que a água faz com a superfície do plástico

O que os pesquisadores descrevem é que o simples contato com a água torna a superfície dos microplásticos quimicamente ativa. Essa atividade dispara a formação espontânea de substâncias capazes de alterar outras moléculas, inclusive as que são essenciais para organismos vivos. Os autores registram que o fenômeno ocorre em condições ambientais normais, sem precisar de luz solar nem de outros agentes que degradam o plástico.

A explicação proposta é geométrica. Conforme o plástico se parte em pedaços cada vez menores, a proporção de superfície exposta em relação ao volume cresce muito, e é na superfície que as reações acontecem. "Conforme o plástico se fragmenta em partículas cada vez menores, sua área de superfície aumenta enormemente", afirmou Wei Min, professor de química e engenharia biomédica em Columbia e um dos autores, em comunicado à imprensa. "Então os microplásticos mudam a água que os cerca, gerando radicais reativos de alta energia que muito provavelmente contribuem para os danos biológicos que observamos em animais e potencialmente em humanos como resultado da exposição a microplásticos."

As substâncias geradas nesse processo são chamadas de espécies reativas de oxigênio. Entre elas, os pesquisadores destacam os radicais hidroxila.

Radicais, estresse oxidativo e o teste com células de sangue

Radicais livres são átomos, moléculas ou íons instáveis, porque têm um elétron sem par na camada mais externa. Para buscar equilíbrio, eles tendem a roubar ou doar elétrons das partículas vizinhas. O corpo produz radicais o tempo todo, como subproduto da produção de energia das células, e em quantidade controlada eles cumprem funções úteis, como o reforço da defesa contra bactérias e vírus.

O problema aparece quando a produção supera a capacidade de neutralização. Essa é a função biológica dos antioxidantes: desarmar as moléculas reativas. Quando os compostos reativos superam muito os antioxidantes disponíveis, essa linha de defesa é sobrepujada, num quadro chamado estresse oxidativo, que leva a dano celular. Os radicais hidroxila preocupam porque conseguem arrancar elétrons das proteínas e gorduras que formam as membranas das células, prejudicando sua estrutura e seu funcionamento. Eles "são exemplos de manual dos tipos de molécula que podem danificar tecido animal e humano", disse Naixin Qian, pesquisadora de pós-doutorado no laboratório de Min que ajudou a conduzir o trabalho, no mesmo comunicado.

Como o sangue é composto em boa parte por água, os pesquisadores quiseram testar o que aconteceria ali. Eles expuseram glóbulos vermelhos extraídos de camundongos a diferentes tipos de microplástico. As células se deformaram e se romperam, um fenômeno chamado hemólise. Os efeitos foram maiores justamente com os plásticos mais reativos com a água, o que indica que essa atividade química era a causa do dano. O resultado é de laboratório, com células isoladas de animal: não demonstra que o mesmo ocorra dentro de uma pessoa.

Vale registrar que o estresse oxidativo já havia sido identificado, em pesquisas anteriores, entre as respostas celulares associadas à exposição a microplásticos. O que faltava eram os mecanismos capazes de explicar esse dano.

O que o estudo não prova

O trabalho não demonstra que a presença de microplásticos na água cause doenças em pessoas. O que os pesquisadores identificaram foi um mecanismo químico que pode ajudar a explicar danos já observados em outros estudos.

Em comentário divulgado pelo Science Media Centre Espanha, serviço que distribui avaliações de especialistas sobre estudos recém-publicados, June-Woo Park, pesquisador do Centro de Pesquisa sobre Segurança Ambiental do Instituto Coreano de Toxicologia, afirmou que trabalhos anteriores já relacionavam essas moléculas aos efeitos tóxicos dos microplásticos, e que o diferencial aqui é mostrar como elas são geradas. "Este estudo é relevante porque fornece evidências científicas sobre o mecanismo pelo qual os microplásticos geram espécies reativas de oxigênio", disse Park, que não participou da pesquisa e avaliou que os autores apresentaram dados suficientes para sustentar as conclusões.

Ele apontou uma limitação. O trabalho analisou microplásticos, as partículas menores que 5 milímetros, mas não investigou as partículas ainda menores, os nanoplásticos. Segundo Park, isso importa porque os nanoplásticos são considerados uma preocupação ambiental ainda maior, pelo tamanho e pela capacidade de interagir com organismos. Para ele, entender melhor essas reações pode ajudar tanto na avaliação dos riscos quanto na criação de políticas para controlar esse tipo de poluição.

Quanto plástico já foi encontrado em gente

O alcance dessa contaminação dentro do corpo humano ainda é objeto de debate, e alguns dos achados mais chamativos foram questionados. Ainda assim, micro e nanoplásticos já foram detectados em pessoas em situações variadas, incluindo acúmulo no cérebro e em órgãos.

A própria equipe de Min assinou, em 2024, um estudo que identificou cerca de 240 mil partículas de micro e nanoplástico por litro engarrafado, a maioria delas nanoplásticos, de 10 a 100 vezes mais do que estimativas anteriores sugeriam. É esse pano de fundo que o novo trabalho recontextualiza: se mesmo uma quantidade pequena dessas partículas está em nossos tecidos, elas podem estar reagindo com a água do corpo.

O que se sabe e o que ainda falta descobrir

Está estabelecido, segundo o estudo, que o contato com a água ativa quimicamente a superfície dos microplásticos, em condições ambientais comuns e sem necessidade de luz solar; que essa atividade gera espécies reativas de oxigênio, entre elas os radicais hidroxila; que, em laboratório, glóbulos vermelhos de camundongos expostos a microplásticos se deformaram e romperam, com efeito maior nos plásticos mais reativos; e que a suposição de que o plástico fragmentado é quimicamente inerte não se sustenta.

Segue em aberto se esse mecanismo se confirma em tecidos humanos vivos, e não apenas em células isoladas ou em animais. Também fica em aberto o comportamento dos nanoplásticos, que o estudo não analisou e que são apontados como a fração mais preocupante. E resta observar se agências regulatórias passam a citar esse tipo de evidência ao reavaliar limites de exposição a microplásticos em água e alimentos, uma possibilidade que Park levanta ao falar em políticas de controle da poluição. Por ora, o que existe é um mecanismo químico plausível para riscos que, até aqui, apareciam como associação estatística.

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